Coisas da vida
Ou da contracapa de um livro usado
Uma das grandes vantagens de comprar um livro usado é que ele já tem uma história. E, claro, é mais barato. Mas já tem uma história. No caso, Alberto, que pela letra provavelmente era médico, ofereceu o livro à sua querida esposa, Doris (Doris??), a quem muito amava, por muitos anos vivendo as Coisas da Vida. Digo "amava" porque lá se vão quase vinte anos desde a dedicatória. Espero que ainda a ame, que vivam juntos e que só tenham vendido o livro porque precisaram fazer uma reforma na casa, que, com a chegada das crianças, precisou que o escritório virasse um quarto de brinquedos, onde, a princípio, Doris achou que ainda caberia um ou outro livro, mas o brinquedos foram se multiplicando e tomaram todo o espaço, onde Doris passou a ficar muitas horas arrumando e rearrumando, enquanto Alberto passava mais tempo fora de casa, afinal, para pagar duas escolas, ele precisou dobrar os plantões e esticar a agenda do consultório, o que para ele até que não era lá grande sacrifício, pois quando pensava que se chegasse cedo as crianças ainda estariam acordadas, que iriam querer brincar, e que talvez ainda encontrasse com sua sogra, que, desde que Doris voltou para a faculdade de letras e retomou o sonho de ser escritora, era quem cuidava das as crianças à tarde, ele considerava melhor então ficar na companhia de Ana, a anestesista, que morava longe da mãe, não tinha filhos e dava tudo pelo trabalho.
Mas talvez seja demais querer que eles ainda se amem e vivam juntos, depois de suas vidas terem seguido caminhos tão opostos. Até porque, apesar da dedicatória, não encontrei pelas páginas nenhum sinal de que Doris tenha lido o livro. Olhando bem, a dedicatória soa mais um pedido de desculpa, que Doris, esforçando-se para entender a letra de seu marido, leu melhor a caligrafia do que as palavras, entendendo, desde aquela época, o quão já haviam se distanciado. Foi aí que, sobressaindo seu espírito materno, teve a sabedoria para relevar as falhas do marido e evitar injúrias que comprometessem para as crianças a imagem do pai, enquanto conduzia um divórcio amigável. A mesma conduta, infelizmente, não foi observada por Alberto, que, arrasado desde a separação e desde que Ana foi morar na Austrália e, mais ainda, desde que Doris assumiu a paixão e o relacionamento aberto com Thiago, seu colega de faculdade, não perdia uma oportunidade de denegrir a ex-esposa diante dos filhos, sempre que a mãe de Doris, a quem ele ainda pedia ajuda, não estava por perto.
Seja como estiverem, o importante é que hoje, graças a Alberto, Doris e à Livraria Berinjela, tenho o livro mãos, o qual ofereço à minha querida esposa, que muito amo…
Texto originalmente publicado no meu Instagram:
Excelente livro de crônicas de Martha Medeiros. Recomendo, usado ou não.




Quanta criatividade, hein!! Adorei sua imaginação!!
Será que as pessoas que lerem este post daqui a 20 anos também vão fantasiar como a sua história com a sua esposa, "a quem você muito amava", estará, no futuro? ;)
Dedicatórias são a história do livro. E produzem outras tantas na nossa imaginação.