Kyoshi
Da série "comprei pro meu filho, mas quem leu fui eu".
Já éramos fãs da saga Avatar, pela A Lenda de Aang, então foi fácil entrar no universo de Kyoshi. Mas, como bom fã, entrei desconfiado para ver se o autor corresponderia à altura do original (quem nunca teve medo de um livro ou filme ou disco 2?). Em poucas páginas, desconfiança desarmada!
E olha que o trabalho do autor não era fácil. Como toda história que se passa num tempo anterior a outra conhecida, ele não pôde contar com a dúvida do leitor sobre o desenrolar final. Ainda assim, algumas vezes tive que parar e me perguntar: “como é que não vai dar tudo errado!?”.
O livro explora bem uma das coisas que eu mais gosto nas histórias dos heróis: a descoberta e o desenvolvimento do próprio potencial. Aceitamos que a Avatar Kyoshi, a heroína da história, é a mesma Kyoshi toda sem jeito e sem confiança do início do livro. Transformação que vai se dando aos poucos, sem saltos, descoberta pós descoberta, que nos faz invariavelmente torcer pela personagem, porque nos identificamos com ela, porque nós mesmos somos sem jeitos, sem confiança, e temos, nós mesmos, nosso potencial a ser descoberto.
Outro ponto positivo é a qualidade da linguagem. Diferente de muitos dos infantojuvenis com que tenho tido contato, aqui não vemos “fitou” nem “deu de ombros”, nem os diálogos são seguidos de explicações, como que tentando convencer o que a própria fala dos personagens não conseguisse passar. Talvez, e triste, é que essa boa linguagem seja uma barreira para as crianças mais habituadas a diários de bananas, capitães cuecas ou coisas piores.
Para não ficar só em elogios, achei dispensável o toque LGBT colocado pelo romance de duas personagens. Não que essa trama não tenha sido trazida com devida beleza, como todas as demais da história, mas não deixou de soar como uma encomenda apelativa às tendências editoriais. Se quis trazer algum valor moral, perdeu a chance de se enaltecer o conceito de amizade, que quando é estabelecida pela vinculação a um mesmo ideal, como era o caso, a fidelidade, sacrifício e outros valores surgem como forças naturais.
No desfecho, um bom final, de difícil compreensão, que, assim como a linguagem, põe alguns neurônios a mais para trabalhar.


