Mudança
Como sim e como não.
Há pouco mais de um mês nos mudamos do apartamento onde passamos os últimos dez anos. Faltavam uns três meses para a mudança, eu já queria sair encaixotando tudo (e aproveitar para jogar um monte de coisa fora). Mas as crianças não estavam no mesmo clima. Achei então que precisava dar uma movimentada e comecei a fazer a seguinte brincadeira na hora do jantar:
“Sabe quem não vai para a casa nova?”
Na primeira vez: “Ahn? Como assim quem não vai?”. Nas dez vezes seguintes: “Tá (que saco...), diz aí, quem não vai para a casa nova?”.
“Esse bar aqui da frente, que tem samba dia sim dia não, não vai para casa nova.”; “A vizinha aqui de cima que fica jogando água na nossa varanda não vai para a casa nova.”; “Aquela pia do banheiro ali vazando também não vai para a casa nova”; “O bar ali da esquina, que em toda mesa tem um deficiente auditivo, também não vai para a casa nova”...
A lista era infinita. O resultado era zero. Não só não funcionava, como eles estavam pegando birra de eu falar da casa nova.
Nesse mesmo tempo eu vinha estudando uma técnica da Logosofia que nos recomenda que na hora de dormir devemos fazer um repasse de todos os instantes vividos durante o dia. Fui percebendo quanta lembrança podemos resgatar e incorporar de volta na vida; coisas que morreriam no esquecimento, como se nem tivessem existido.
Se funciona para um dia, deve funcionar para dez anos. Resolvi mudar a brincadeira:
“Quem fala uma lembrança feliz aqui nessa casa?”
Menos engraçadinha, mas, depois de uma resistência inicial, a brincadeira funcionava. Uma depois da outra, começaram a surgir as lembranças: os primeiros dias da caçula, com o aroma feminino que ela esparramou pela casa; os banhos de mangueira na varanda e os fins de tarde conversando sentados nas cadeiras de praia; os esconde-esconde; as festas do pijama; as lutas de judô; o pique sofá-cama; as “batalha animal”; os estudos com um cafezinho na cozinha na calada da madrugada; a rede, que nunca as crianças deixaram ser um momento de descanso; o quarto novo decorado; os amigos que recebemos; os vizinhos; as caminhadas para a escola... Meu Deus, como fomos felizes naquela casa! Eu já estava até desistindo da mudança...
Mas curioso que aí é que a coisa foi acontecendo. Aí sim entendemos que era hora de fechar uma porta — a porta de onde vivemos os melhores anos — para abrir outra, sabendo agora que, muito mais do que as circunstâncias, a atitude diante delas é que vai decidir se os instantes vividos terão a honra de ser recordados.



Enquanto lia, conseguia imaginar todos à mesa compartilhando as histórias. Que muitos capítulos sejam escritos no novo lar 🌷
“Tudo que é bom dura o tempo suficiente para não ser esquecido!”