PanaPaná
O que ficou de um passeio.
Esta não é uma newsletter sobre livrarias, mas ultimamente é só o que tem me surgido. Outro dia lembrei de quando conhecemos a PanaPaná, em São Paulo. Era janeiro de algum ano não muito distante. Já com dois filhos, nossas viagens começavam a se restringir a onde conseguíamos chegar de carro. Foi assim que São Paulo — cidade e estado — foi entrando para uma de nossas rotas favoritas de férias; ainda mais em janeiro, quando cada dia longe do Rio é uma vitória.
Como bons turistas com crianças, fizemos um piquenique no Ibirapuera, elogiamos o clima da cidade, o trânsito — mesmo sem nunca ter pisado lá num dia útil que não fosse nas férias — e saímos procurando uma sorveteria italiana de rua. A sorveteria acharíamos mais tarde. O que surgiu primeiro foi a livraria de pequeno porte mais charmosa, convidativa e com um dos acervos mais bem selecionados que já conheci até hoje. Não sei se a seleção veio pela limitação do tamanho do espaço, ou se era uma escolha desde a ideia original da livraria. Propositalmente ou não, é o ponto alto.
Na época, tudo que tinha capa e podia ser folheado chamávamos de livro, sem distinção do que era literatura, livro didático, livro antididático, propaganda ideológica, propaganda religiosa, brinquedo em forma de livro, tentativa de literatura e má literatura, e começávamos a perceber que havíamos entrado despreparados na fase de formar nossos pequenos leitores. Se o desabafo ficou muito confuso, o fato é que estávamos desesperados em busca de bons livros. Problema que, com o achado da PanaPaná, por um bom tempo estaria resolvido, ou pelo menos transferido para o cartão de crédito. Mas na época tínhamos apenas dois filhos. Éramos ricos.
Uma das joias que fazem sucesso aqui em casa até hoje é "O Passeio" (sobre o qual fiz um post recente). Outra é "A Onda", de Suzy Lee. Reencontramos Ruth Rocha, com "Marcelo, Marmelo, Martelo"; "Pedro e Tina", que nos apresentaria Stephen Michael King, e outros também bons mas que fizeram menos sucesso, a ponto de eu não me lembrar quais. Não tenho certeza se foi lá, mas "A Incrível Fábrica de Cocô, Xixi e Pum" também era um dos favoritos, antes de ser mutilado pelas mãozinhas interessadas.
Sem a profusão das grandes redes, sem a ênfase ditatorial dos lançamentos, que deixam todas as livrarias iguais, e primando sim por uma seleção bem feita, declaradamente parcial, que dá identidade à loja, com um espaço bem cuidado e um atendimento de quem está vendendo livros não porque foi o que conseguiu como emprego, mas como quem largou outro para estar ali, a PanaPaná nos puxou naquela manhã e reabriu em nós um universo que começava a se nublar.
A palavra gratidão anda muito gasta. Dispenso. Chamar este de um texto de agradecimento também soa fingido e forçado. Melhor, e sem débitos de nenhuma das partes, é ser grato como aprendi na Logosofia: fazendo bom uso do bem recebido. Sendo um bom leitor, que descobre e valoriza a arte onde nem todos a encontram, lendo com as crianças, escrevendo, publicando; cada vez que faço isso, reforço em mim e correspondo, pelo menos um pouco, ao que ganhei naquele dia.


