Travessa
Um passeio pelo túnel da literatura
Quem conhece sabe não só onde eu estava, como também que precisei dar um pulinho no banheiro. Mas está claro que era numa livraria.
Tínhamos a missão de trocar um livro infantil e não comprar nenhum outro. Ó quanta ousadia! Com crianças, então, tinha tudo para ser uma tarefa perdida. É verdade já conhecida que, desde o primeiro passo dentro de uma livraria, quanto mais as de rua, em que saímos da zona de bafo quente e barulho e entramos no mundo fresco, silencioso e mágico, desde esse momento os livros começam a sussurrar. É que eles, senhores de si, são, na verdade, como meninos carentes; querem atenção, querem ser lidos e levados para casa.
Nessa tal livraria, cujo espaço nada mais é que um corredor, que aqui na zona sul conseguem-se fazer até supermercados, a sessão infantil fica nos fundos da loja. Para chegar até ela, tivemos que passar por toda a literatura de todos os países e por alguns dos grandes nomes da humanidade.
Ignorar o balcão de lançamentos e mais vendidos foi fácil. O problema eram as paredes. Logo de início, dezenas de Garcias Marques cheios de cores proliferavam como se fossem um autor novo recém premiado. Vi que havia um mais fininho, verde, se dizendo inédito. Combinei de nos vermos em agosto.
Depois foi Cervantes, em dois volumes vultosos, armado em capa dura, todo fidalgo, me advertindo de que não é de hoje que o tenho evitado. Renovando a promessa de encará-lo, passei ele duas posições à frente na lista de leitura, mas, apontando para o preço, o fiz entender que o procuraria em uma estante virtual.
Entre os brasileiros, onde eu mais haveria de balançar, contei com a vantagem de ser um devedor bem relacionado, daqueles que a dívida é quase infinita, mas todo mês quita lá uma parte. Cumprimentei-os com o devido respeito, folheei velhos conhecidos, agradeci pelos bons momentos e segui adiante. Qualquer nova promessa ali era inválida, enquanto eu não diminuir as pilhas das estantes de casa.
Espremido entre biografias e artes & culinária, fiquei constrangido ao ver mais uma famosa, que deve ter passado os últimos vinte anos servindo-se em hotéis e restaurantes, posando em uma cozinha fake, com panelas que nunca foram usadas. Voltei-me para os grandes nomes. Mas das biografias, que já foram minha busca principal, mal ouvi as vozes. Não vou dizer que os ídolos atuais não sejam dos mais inspiradores. Ficaria evidente minha implicância. Talvez a ansiedade com que eu os procurava é que tenha acalmado, desde que descobri a Logosofia, grande fonte de conhecimentos que eu sempre buscava pelas prateleiras afora (daí a possuir esses conhecimentos já é um processo à parte; mas tenho caminhado).
Depois foi a sessão de filmes. Esses, que não assisto, por opção e por tempo, até eles deu vontade de comprar! Passei devagar, lembrando os bons tempos em que perscrutávamos as sinopses e as capas, e chegávamos com uns três ou quatro no balcão, contando com a ajuda do atendente — geralmente o dono da loja — para decidir por qual alugar.
Finalmente a sessão infantil, onde meus filhos já estavam há umas meia hora. Com o combinado de que “brinquedo não vale”, estávamos imunes a quase metade das estantes. Do que sobrava, tentei ajudá-los a decidirem qual único livro iríamos levar. Mas se fui armado para o difícil trabalho de escolher um dentre uma montanha, a dificuldade foi outra: convencê-los a levar um, pelo menos.
Fui fazendo isso enquanto que remoendo uma decepção: será que eles não gostam de livros como deveriam gostar? Uma reflexão rápida pôs essa dúvida de lado. Felizmente a leitura tem um valor distinto e especial para cada um aqui em casa. Ainda assim, a sensação continuava. E então, quando minutos depois me vi como eles, atraído por nada, a decepção se fez mais clara: era com a literatura infantil, pelo a menos a exposta ali naquela hora. Não faltava em abundância, nem em variedades, mas fiquei com a sensação de ela estar meio perdida. Muitas bandeiras, muito tema encomendado, e poucas, ou muito escondidas, histórias autênticas, conectadas com o dia a dia das crianças de hoje, e criadas por aquelas almas geniais e infantis de adultos, livres, e não por almas ressentidas de adultos mal resolvidos, tentando plantar na terra virgem da infância alguma ideia que eles mesmos não conseguiram realizar.
Claro que se a fome e o cansaço já não estivessem se fazendo presentes, acabaríamos encontrando alguma joia, e eu estaria aqui fazendo uma resenha de algum livro infantil que teríamos lido felizes no final daquele sábado. Mas, vencido pela decepção e pelo cansaço, depois de folhear algumas obras, acabei concordando com a sugestão da minha esposa, sempre tão prática, de levarmos um livro já conhecido, e que gostamos, para darmos de presente em algum dos próximos mil aniversários.
Saímos, assim, com a missão quase cumprida. Desculpa técnica: minha esposa, novamente tão prática, e tão à frente do meu tempo, enquanto eu conversava com os livros, escolheu um do seu agrado para, caso sobrasse algum crédito da troca, como haveria de sobrar, completarmos a diferença e levarmos o livro que sussurrou para ela, como dever de caridade.


